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Voluntários também mudam histórias

Alguns voluntários são muito mais do que suas profissões e habilidades podem produzir. Estava lembrando que daqui há alguns dias deixarei de usar uma prótese dentária móvel, depois de uns três anos. Ela me foi útil durante esse tempo, mas não vejo a hora de tirá-la de uma vez por todas. Isso só está sendo possível, por conta de alguém que enxerga além dos olhos, porque enxerga com o coração. É isso mesmo. O coração tem a habilidade de ver através da retina da empatia compassiva.

 

A Dra Lisiane, uma dentista de Curitiba-PR, onde moramos, conheceu a nossa história de adoção pela minha filha Carolynne que era professora de sua filha. Ficou tocada pelo que ouviu, e prontamente se pôs a disposição para ajudar naquilo que é sua competência. Nunca tinha nos visto, mas seu coração enxergou a possibilidade e a oportunidade de poder servir com seu dom, pessoas que tinham necessidades justamente e ou também em sua área de atuação. Meu sexto filho, pela escala das idades, fez uma avaliação e iniciou um processo ortodôntico.

 

Levei-o a um dos atendimentos, e fui chamado para ver como ele estava falhando na sua higiene bucal, tão importante no processo de tratamento, e sempre na verdade. Esta conversa meio bronca no Cristofer, virou um papo a respeito dos meus dentes. Bem tortos por conta de perdas dentárias durante minha infância/adolescência, havia uns três anos que começara a sofrer com dores próximas ao maxilar esquerdo tão fortes, que achava que sofria de otite. Já tinha passado em um otorrino que depois de examinar me encaminhou para um dentista.

 

Foi estranho pra mim, mas não hesitei em procurar, porque aquela dor era realmente insuportável, e já irradiava pelos nervos até a cabeça. Muito desconfortável realmente. Foi então que entrou na minha vida a tal prótese móvel. Trouxe um alívio nas dores logo nas primeiras semanas, no entanto, se tornou um incômodo visitante na minha boca do qual teria que cuidar diligentemente de agora em diante, num infindo e desagradável tira e põe daquele conjunto de metal com não sei mais o que, imitando horrorosamente meus dentes.

 

Naquela conversa nasceu uma nova esperança para mim. Por mais que aquelas dores tivessem melhorado sensivelmente com a prótese, meus dentes continuavam disformes, e minha mordida ainda estava desencontrada ao ponto de prejudicar a trituração dos alimentos causando por  vezes desconfortos estomacais. É sério. A questão já estava muito além da estética, mas por conta dela, os prejuízos no tocante a qualidade de vida em vários aspectos eram desalentadores. Apesar de me considerar uma pessoa bem resolvida, aquela situação estava me incomodando também pelo fato de ter que falar em público com frequência. Já estava mexendo com minha autoestima.

 

Saí daquele atendimento com data marcada para retornar, e iniciar um tratamento ortodôntico com valor social. Não teria condição de assumir o tratamento do  Cristofer, muito menos de nós dois. Ele já vinha sendo atendido com custo zero neste consultório. Fiquei realmente muito feliz naquele dia, e grato a Deus por tamanha provisão. Uma nova expectativa renasceu dentro de mim.

 

Vou falar do Cristofer em outro momento, mas só para entendermos um pouco o valor desse momento, quero comentar algumas coisas. Ele veio, junto com seus irmãos, de um contexto de perdas e dores muito profundas em várias instâncias de sua vida, embora tão novinho ainda. Nós, enquanto pai e mãe estávamos propostos a dar o melhor de nós para eles, porque sempre entendemos que o que ansiavam era por uma família. Por um pai e uma mãe, e não por coisas ou bens materiais, não que não as desejassem também. Porém as demandas trazidas por eles estavam indo um pouco além da fronteira daquilo que podíamos suprir, para ressarssir seus valores e estimas roubados pela rejeição que vivenciaram. Pode parecer irrelevante para alguns essa questão dentária, mas para ele, no futuro, seria mais uma ferida aberta, que certamente contribuiria para mais rejeições, discriminação e bem possivelmente uma vida infeliz e depreciativa. Aquele tratamento estava dando de volta para ele, o sorriso da alma. Estava devolvendo para ele parte de sua autoestima. Apesar de reclamar de ter que fazer aquela trabalhosa limpeza diária, tinha consciência do bem que aquilo representava para ele.

 

Pessoas iluminadas por Deus podem ver a milhares de quilômetros de distância. Elas podem alcançar por sua visão transcendente, pessoas em países longínquos que estão pedindo socorro pelas mais variadas necessidades básicas e prementes. Muitas pessoas assim, se voluntariam em causas nobres, deixam tudo para trás e partem numa missão Divina, e não descansam até que a missão esteja cumprida. Só sentem suas almas supridas, quando derramam suas vidas através de seus dons e talentos para reparar os danos sofridos naqueles. Alguns abrem seus consultórios, escritórios, suas empresas, seus recursos, e recebem a estes com amor, sabendo que sua possibilidade de servir, está bem ali, ou bem aqui, debaixo de seus olhos. São seres que não estão presos naquilo que possuem. Na verdade são livres do cárcere das avarezas, e “põem o que são naquilo que fazem”. São muito mais do que suas profissões e habilidades podem produzir.

 

Obrigado Deus por estes!

 

Marcos e Ingrid são pais de 8 filhos, 5 deles por adoção. Leia mais sobre a história deles aqui: https://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/comportamento/familia-mendes-prova-que-amor-fala-mais-alto-que-sangue/

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